Blog Arte Sem Amarras (por Carlos Eduardo Marotta Peters)


28/12/2015


Por uma vida longa e feliz para Madame Bovary

Matar o personagem que transgride as convenções sociais é uma estratégia comum na literatura (e, por tabela, no cinema). O século XIX nos forneceu várias vítimas fatais de seus “desvios” de conduta. Tal estratégia visava obviamente acalmar o público conservador, temeroso que o comportamento visto como inadequado fosse premiado com uma vida digna, próspera e longa. É como se esses personagens não tivessem direito a tal vida... Afinal, na cabeça quadrada do conservador, uma obra de arte deve fornecer exemplos de conduta para seu público. Mas a conduta correta é sempre aquela estabelecida por ele e seus pares. A morte final restabelece a tal “normalidade” desejada por eles.

A lista de personagens que sucumbem no fim da história é longa: Madame Bovary de Flaubert, Anna Karenina de Tolstói, Lucíola de José de Alencar, etc. O caso de Lucíola é um que sempre me chamou a atenção. Ela morre duas vezes. A moça já começa morta na história e, no final, morre de verdade. Deixem que eu me explique.  Ela é uma mulher solitária no mundo porque está morta para a família (morte simbólica para seu grupo de origem também é morte) em função de seu comportamento. O duro é que seu comportamento “desviante” foi causado por uma necessidade da própria família. Quando finalmente Lucíola encontra uma pequena luz no fim do túnel, morre de verdade. Crueldade pouca é bobagem...

O cinema, que deriva em grande medida da literatura, tem também uma grande galeria de mortos. Não só mulheres adúlteras (são muitas as adaptações de Madame Bovary e Anna Karenina para o cinema), mas os “desvios” da natureza também precisam morrer. O trágico monstro do Dr. Frankenstein é um deles (não importa que ele seja ressuscitado nas continuações...). Mas a galeria é longa. A maioria dos monstros (humanos ou não) morre no final. 

Gostaria de ver uma adaptação modernosa de Madame Bovary em que quem encontra a morte no final não é a esposa adúltera, mas o marido bovino que a encarcera numa vida monótona e sufocante. Ou melhor, gostaria de ver uma Madame Bovary feliz em Paris, enquanto seu marido chafurda na mediocridade numa vila francesa qualquer. Como não sou um purista, subverter os clássicos talvez fosse o primeiro caminho para dar vida longa e próspera a quem merece... 

Fiquei esperançoso quando anunciaram a versão pós-moderna de Anna Karenina, com Keira Knightley no papel principal. Esperava que tivessem a coragem de parar o trem que mata a protagonista no final, ou que fizessem uma Anna forte e decidida, capaz de superar os preconceitos de sua época e ter controle sobre sua vida. Mas o filme não faz isso. Prefere perder tempo com cenários móveis e atuações histriônicas. Que pena!

Por C. E. M. Peters.

Escrito por marottapeters às 11h34
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07/10/2010


Peixe-drácula descoberto na Ásia

A BBC Brasil noticiou a descoberta de novas espécies na Ásia. Dentre as mais interessantes estão o peixe-drácula e o pássaro careca. A julgar pela cara do peixe, acho que nome deveria ser peixe-nosferatu, já que tem os dentes bem próximos. Vampiros com caninos longos foram inventados porque a fisionomia do verdadeiro morcego-vampiro não é muito assustadora. Os homens temem mais os caninos separados e longos dos grandes predadores. Pena que esses animais sairão diretamente da lista de novas descobertas e entrarão na lista das espécies em risco de extinção. A biosfera está morrendo aos poucos, mas parece que ninguém se importa. Existem até aqueles que afirmam que está tudo bem com a Terra (geralmente são pesquisadores que recebem seu polpudo salário de grandes corporações). Segue o link da notícia:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/10/101006_mekongbichos_is.shtml

Escrito por marottapeters às 17h00
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06/10/2010


Bestas humanas

Nesses tempos pós-modernos em que vivemos, fatos e mais fatos são fartamente anunciados pela mídia sem que sejam analisados os seus sentidos profundos. Um desses fatos, que ficou perdido em meio à cacofonia midiática, diz respeito a uma estranha onda de suicídios de funcionários da empresa Foxconn na China. O jornal francês Le Monde noticiou tais suicídios no dia 28 de maio desse ano, no que foi seguido por outros meios de comunicação. A maioria deles, usando de uma miopia calculada, tratou o problema como um fato isolado, anedótico, enfatizando o caráter desumano da gestão da referida empresa e da militarização do seu regime de trabalho.

Não se trata, contudo, de um caso isolado. A China alavancou seu crescimento econômico utilizando a estratégia dos países latino americanos nos anos 50. Passou a oferecer incentivos às multinacionais, acenando com medidas de desregulamentação e subsídio. Mas o principal atrativo do mercado chinês é outro. Trata-se da generosa oferta de mão de obra barata. Como a China não é um país democrático (e nem comunista), mas sim uma ditadura centralizada, com um partido monolítico no poder, pôde viabilizar tal "vantagem" com a proibição das greves e sindicatos. Por outro lado, as EMN (Empresas Multinacionais) instaladas no país podem, contando com a conivência do estado, impor um regime de trabalho que se parece com a escravidão. A carga horária de muitas empresas chega a doze horas por dia e os salários mal chegam à casa dos duzentos dólares (contando as intermináveis horas extras). Além disso, os operários são vigiados, humilhados e sofrem até mesmo castigos físicos.

Num mundo globalizado e complexo, como dizem muitos analistas, isso não chegaria a preocupar. Como disse, nesse caso a miopia é intencional. O problema é que a China, por esses e outros motivos, se transformou num dos maiores centros de atração de investimentos do mundo. O capital produtivo internacionalizado migra em massa para regiões que aumentam suas taxas de lucro, não se importando de fato com questões humanitárias ou ambientais. O empresário internacionalizado sequer conhece as unidades produtivas de suas empresas e os acionistas não se importam com as condições de trabalho dos empregados que engordam seus bolsos. Se vivemos num mundo que se "globaliza" (a expressão é teoricamente condenável, já que o que se globaliza é o capital), logo países onde direitos sociais e trabalhistas foram duramente construídos durante o século XX retrocederão ao século XIX, quando o capitalismo selvagem não tinha nenhuma preocupação social.

Por essas e outras, os discursos no mundo empresarial se tornam cada vez mais dissimulados. Competitividade, competência, qualidade total e toda uma gama de jargões e frases prontas funcionam como uma grande névoa, que esconde o verdadeiro discurso: "a China tem trabalhadores baratos, dóceis e famintos; a culpa é de vocês que são bem alimentados, possuem carteira assinada e direitos garantidos pelo estado". Modernidade, nesse caso, significa a transformação do trabalhador numa besta maquínica e vazia, num rascunho de homem, do tipo descrito por Zola em Germinal e por Chaplin no filme Tempos Modernos . Já tive o desprazer de ver um desses mecanismos de desumanização em ação. Algumas empresas juntam seus funcionários como gado num local qualquer e submetem-nos a um regime de privações e humilhações em nome da "solidariedade" corporativa e do desempenho. A disciplinação (proto)fascista do trabalho avança a passos largos no mundo "globalizado". Logo trocaremos a "era dos direitos" pela "era do desempenho". Digo LOGO para não desesperar o leitor, já que a desmontagem dos direitos sociais começou em algum lugar da década de 1980, quando o reaganismo nos EUA e o tatcherismo na Inglaterra se transformaram em receitas para a desconstrução do estado de bem-estar  que foi montado a partir da década de 1930. O problema mais grave é que, concomitante a esse endurecimento do trabalho, podemos perceber a produção em massa de "sobras" do processo produtivo. Desempregados e subempregados são a maioria no capitalismo global, o que inverte perigosamente o processo de inclusão iniciado nos anos 30. Aumento da criminalidade e retorno dos fundamentalismos são apenas dois efeitos (os mais visíveis) da pauperização e da exclusão social. A xenofobia é outro problema. Voltaremos a falar desses assuntos em outra oportunidade.

 

Escrito por marottapeters às 17h23
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01/10/2010


Sobre as eleições

O Brasil caminha para mais eleição presidencial. A sexta depois do fim da malfadada ditadura militar, que levou o Brasil ao caos político, ao aumento do abismo social (com o achatamento salarial usado para aumentar a reinverção de lucro das empresas), e à crise profunda dos anos 80 (sim, a dívida pública e o gigantismo do estado são crias dos militares e dos seus tecnocratas). Eleições, ao contrário do que muita gente propala por aí, são fundamentais para a manutenção do sistema democrático. Foram (re)criadas a partir do século XVII para minar pouco a pouco o poder dos monarcas absolutos e da nobreza. O fato de muitos eleitores discordarem do resultado das eleições não significa que elas foram inúteis, manipuladas, estranhas ou simplesmente inócuas. É sobre isso que falarei aqui neste pequeno espaço.

Me assustam, e muito, as teorias de conspiração criadas no cenário atual para acusar esse ou aquele candidato de ser golpista, insidioso, fantasmagórico, monstruoso ou qualquer coisa que o valha. Não é uma boa tática. Devo dizer o óbvio, porque muita gente está se esquecendo dele: nenhum dos candidatos com chances reais de vencer a eleição é um ditador em potencial. Ninguém quer fechar o Congresso Nacional (aliás quem quer fazer isso são os teóricos da conspiração!) e implantar um executivo onipotente no Palácio do Planalto. Todos os candidatos estão de acordo com a ordem democrática. Dizer o contrário é distorcer os fatos e jogar na lata do lixo anos e anos de luta contra a verdadeira ditadura; e jogar fora também séculos de reflexão da Filosofia e da Ciência Política.

Os dois partidos majoritários das eleições brasileiras (PT e PSDB), apesar de se odiarem (e isso é normal no jogo democrático), são partidos modernos, surgidos no caldo de cultura de luta contra a já referida ditadura. Apesar de terem programas diferentes, não são golpistas ou ditatoriais. Confundir nacionalismo moderado, social democracia e liberalismo exaltado com ditadura é manobra perigosa, que intenta usar o medo como instrumento político. Foi exatamente isso o que aconteceu no início da década de 1960. Os golpistas que tramaram a queda de João Goulart (presidente legal do Brasil) usaram e abusaram da retórica conspiratória, associando o presidente com o comunismo internacional e com uma suposta quebra da ordem política tramada por ele. João Goulart nunca foi comunista e nem intentava dar um golpe. Tanto é que fazia planos para eleições futuras quando de sua posição. Seu único pecado foi pretender fazer reformas de base num país ainda bastante arcaico, que sequer havia montado um welfare state decente, como o europeu. Ser populista-nacionalista-reformista não é ser golpista. E ele, naquela conjuntura, não era. O golpe foi tramado para supostamente salvar a democracia. Foi exatamente isso o que noticiou boa parte da imprensa a partir de primeiro de abril de 1964. Na verdade, o que aconteceu foi o fim da democracia e a destituição de um presidente legal que tinha a aprovação de mais de 50% da população brasileira. Um presidente legítimo, portanto.

Por isso, penso que os partidos modernos de nossa política deveriam abandonar a retórica da conspiração. Ela é perniciosa para a democracia. Os dois partidos majoritários sabem muito bem disso e deveriam instruir melhor seus cabos eleitorais. Muitos batem, por outro lado, na tecla da corrupção. Aí o problema tem outra conotação. Todos os partidos, em maior ou menor escala, são direta ou indiretamente afetados por ela. Qualquer um que lê várias revistas (e não só a Veja ou a Istoé) sabe que os governos estaduais e municipais (de diversos partidos) padecem desse mal. Nenhum dos partidos majoritários é um câncer a ser extirpado do corpo da nação brasileira por isso. Nenhum dos partidos é uma serpente maliciosa que quer devorar o país (como algumas capas de revista sugerem). A metáfora da doença foi muito utilizada no passado para legitimar perseguições sistemáticas, como aquelas realizadas pelo partido nazista alemão.

Em suma, o Brasil não está em perigo, a Terra não está em perigo, a humanidade não está em perigo por causa das eleições. O que temos são partidos legais lutando pelo poder. Manobras escusas de vez em quando pipocam (e sabemos que nosso sistema político não é perfeito), mas ninguém está a fim de criar um III Reich tupiniquim. É necessário lembrar, como disse, sempre o óbvio: não é porque o seu partido não veceu que a democracia não presta! O presidente que sair vencedor das urnas é legítimo porque foi escolhido pela maioria dos eleitores. O debate, meus caros, deve ser sobre os programas partidários e, nesse sentido, perdemos muito tempo de propaganda eleitoral e de colunas jornalísticas, já que quase nada foi dito sobre isso de forma profunda e objetiva. Ninguém parece se importar com nada que cheire a discussão complexa. O Brasil avançou muito nos últimos anos. Ninguém deve duvidar disso. Tivemos vários presidentes eleitos que chegaram ao fim de seus mandatos sem tentativas de golpe. Se compararmos a atual democracia com a malfadada democracia populista - 1945-1964 - que só teve uma certa normalidade no mandato de JK, veremos que isso é uma grande conquista. O abismo social continua um obstáculo a ser vencido, assim como a extensão dos direitos civis a algumas minorias. Mas não conseguiremos superar tais problemas com teorias conspiratórias ou com a quebra do sistema democrático.

Escrito por marottapeters às 09h37
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Fenaquistiscópios, esteroboscópios e fantasmascópios

O primeiro aparelho que reproduziu perfeitamente a ilusão do movimento foi inventado por Joseph Plateau em 1832: era o fenaquistiscópio. A imagem que ele produzia, de um homem dançando, criava ilusão com 16 posições diferentes. Na mesma época, Simon Stampfer criou um aparelho semelhante, denominando estroboscópio, que apresentava ciclistas. Em 1833, surgiu outro aparelho: o fantasmascópio. Todos eles usavam imagens de danças e atividades físicas para aumentar a ilusão de movimento das cenas.

Muitos autores sérios afirmam que tais aparelhos eram pioneiros, ainda bastante rudimentares, e que não tinham possibilidade de se transformarem em objeto de desejo e de consumo das massas. Até porque a renda disponível para tralhas no século XIX era pequena. Discordo dessa visão. Acho que esses aparelhos não deram certo por causa do nome. Já pensaram em ter um fantasmascópio na sala? E em procurar filmes para um fenaquistiscópio? E quando surgissem aparelhos mistos, captando o consumidor com a possibilidade de lerem mais de um tipo de mídia? Seria estranho ver um anúncio de fenaquistisestrobofantasmascópio. Ainda bem que hoje temos aparelhos com nomes simples. Viva os dvd players!

Escrito por marottapeters às 00h42
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29/09/2010


História do Corpo: parte 0

Um dos objetos mais obscuros da História está dando, pouco a pouco, as caras. Trata-se do corpo, alvo da atenção de artistas, médicos, educadores, dentre outros profissionais. Os historiadores, desde a primeira metade do século XX, vêm alargando o campo de sua área. São várias as escolas e autores que renovaram a História. Não cabe aqui, nesse pequeno artigo, fazer um inventário disso. Farei uma breve reflexão, contudo, sobre uma das temáticas que surgiram nesse processo de renovação: a História do Corpo. Não farei aqui uma análise historiográfica. Isso fica para outra oportunidade (e, talvez, outro suporte). O que pretendo é uma pequena reflexão sobre a história do corpo na modernidade capitalista. E, nesse sentido, este pequeno texto sequer é uma obra original, já que se baseia nos trabalhos pioneiros de Eric Hobsbawm, Anson Rabinbach, Michel Foucault, Marcel Mauss, dentre outros; além de obras de autores brasileiros como Margareth Rago, Maria Clementina Pereira Cunha, Maria Cecília Donaldson Ugarte, etc. Por ser um texto de blog, não darei a ele uma cara científica, com longas citações e discussões teóricas, mas procurarei, na medida do possível, dar crédito aos devidos autores.

Na passagem do século XVIII para o XIX uma grande mudança na história da humanidade aconteceu. Trata-se da já famosa Revolução Industrial. O célebre historiador inglês Eric Hobsbawm afirma que não houve um outro evento que mudasse tão drasticamente a vida humana sobre a Terra. Talvez a Revolução Industrial tenha como rival apenas a Revolução Neolítica, que fez o homem passar do nomadismo ao sedentarismo por causa do desenvolvimento da agricultura. A Revolução Industrial levou a Inglaterra, e depois quase todo o planeta, a uma urbanização sem precedentes, bem como a mudanças no universo do trabalho, da cultura e da política (é só pensarmos no século XIX e seus vários “ismos”: anarquismo, socialismo, comunismo, etc). Foi responsável também por um processo radical de “desenraizamento”, com o êxodo rural e a destruição dos vínculos tradicionais que uniam os homens com a terra e com a comunidade. O homem moderno, “desenraizado”, foi jogado pouco a pouco num turbilhão de eventos incapaz de dar a ele um “sentido” estável para sua vida e para o mundo. Exagero? De forma alguma! Se pensarmos na expulsão dos camponeses ingleses, nas condições insalubres de trabalho nas fábricas e no amontoado de operários (e marginalizados) que se acumulou nas cidades, não é possível negar que o mundo urbano forneceria, dali em diante, condições de vida terríveis para grande parte da população européia (processo que se repetiria em outras partes do mundo). Demorou muito tempo para que o capitalismo se “humanizasse”, ainda que tal humanização (acontecida, por exemplo, quando da ascensão da social-democracia e do estado de bem-estar após a Segunda Guerra Mundial) nunca tenha sido completada. Ela permaneceu provisória, uma espécie de eterno porvir, um El Dorado de abundância e felicidade situado em algum lugar do futuro.

Uma das mudanças mais drásticas acontecidas nesse novo mundo industrial foi a transformação no universo do trabalho. O trabalho fabril pouco a pouco transformou o homem num animal laborador. Longas jornadas de trabalho (que chegaram a 14 horas por dia), salários achatados, poucos direitos e um corpo submetido paulatinamente a uma rotina de trabalho estafante foram as marcas da Revolução Industrial. As condições de trabalho e vida dos operários no capitalismo do século XIX foram tão degradantes que o historiador Anson Rabinbach chamou esse século de século da fadiga.  No livro pioneiro The human motor, ele descreveu o processo de construção do corpo e sua relação com o trabalho nas fábricas. Rabinbach criou a imagem do homo-motor, um corpo que é um reservatório de energia, capaz de transformar sua força em trabalho mecânico. A partir da metade do século XIX foram criadas técnicas sofisticadas para medir e dominar o corpo humano, que passou a se submetido a uma lógica puramente produtiva. Médicos, administradores, moralistas, religiosos e toda sorte de especialistas passaram a prescrever a atividade laborativa como remédio contra todos os males. Segundo o filósofo Michel Foucault, teve início um processo de docilização dos corpos para extirpar deles todas as práticas tradicionais, improdutivas e indisciplinadas. Tal “disciplinarização” passou a ter, pouco a pouco, um verniz científico. Uma infinidade de novas ciências surgiu para dar conta do corpo humano e transformarem-no numa máquina eficaz. Segundo Maria Cecília Donaldson Ugarte, os industriais, médicos e administradores do século XIX e de parte do século XX achavam que o corpo humano era capaz de trabalhar sem parar, como uma máquina. Bastaria a ele algum alimento e descanso. Segundo ela, ignorava-se a segunda lei da entropia, ou seja, que a energia se esgota a cada vez que se usa. Como resultado, completa a autora, a fadiga e a neurastenia viraram verdadeiras epidemias.

Durante boa parte do século, esses efeitos nocivos do trabalho eram creditados muito mais a uma suposta indolência ou preguiça dos trabalhadores do que a fatores físicos. Só na virada para o século XX é que alguns especialistas (higienistas, fisiatras, psicólogos, etc) passaram a criticar tal visão. A “preguiça” continua até hoje a fazer parte do discurso de muita gente para afirmar a culpa dos trabalhadores por sua condição, mas a crítica aos excessos da carga de trabalho e aos males causados por um arremedo de trabalho, repetitivo e alienante, firmou pé na discussão sobre o tema. Aliás, o pensamento socialista foi, em linhas gerais, pioneiro nas críticas ao sistema de trabalho inventado pela Revolução Industrial. Ainda que as teorias de Marx e Engels, por exemplo, sejam bastante controversas, não podemos deixar de dar razão aos dois quando produzem um triste retrato dos operários da Inglaterra em meados do século XIX na obra A condição da classe operária inglesa. A pena de alguns escritores também se sensibilizou com as condições de vida dos trabalhadores. Como não lembrar das crianças pobres, famélicas e exploradas de Oliver Twist de Charles Dickens e dos corpos maltratados e mutilados dos mineiros de Germinal de Émile Zola?

Outra mudança importante aconteceu quando da invenção de diversas “ciências do trabalho”, que invadiram os manuais dos administradores e a vida dos trabalhadores, incitando-os à atividade física para aumentar a resistência dos corpos à rotina estafante do trabalho (a educação física, por exemplo, foi inventada nesse contexto). Mas falar sobre tal tema seria alongar demais este pequeno artigo. Continuaremos a falar, em outra oportunidade, dessa colonização do corpo. Discutiremos também o longo e doloroso processo que levou a uma mudança fundamental no estatuto do corpo no mundo industrial-capitalista (e mesmo no mundo do socialismo real). Segundo Ugarte, a modernidade deslocou o corpo para deixar de pertencer a si mesmo e servir como uma máquina de produção.

Escrito por marottapeters às 14h28
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28/09/2010


A outra Alice

Vi recentemente o filme-pipoca Resident Evil 4. Normalmente não faço resenhas de filmes assim, a não ser que me ofendam profundamente (lembram do texto sobre Van Helsing?) mas, no caso da referida película, farei uma pequena exceção. Todas as pessoas possuem um filme ruim favorito, daqueles que envergonham quando defendidos publicamente. Meu filme ruim é Resident Evil, o primeiro, feito no começo da década. Não se preocupem, não vou fazer aqui a defesa daquilo que é indefensável. Resident Evil é apenas um filme B e eu tenho plena consciência disso (ao contrário daqueles fãs histéricos que não possuem senso crítico... rs). O que quero fazer é uma leitura emocional da obra. Primeiro, trata-se de um zombie movie, ainda que deturpado e cheio de frescuras. E qualquer zombie movie merece uma olhada. Em que outro lugar encontramos cenários apocalípticos, crítica política mal lapidada e litros de sangue falso? Não podemos nos esquecer que George Romero, com o clássico A noite dos mortos-vivos de 1968, praticamente inventou o zombie movie político. No caso dele, com muita dose de criatividade e absolutamente nenhum dinheiro. Resident Evil bebe direto da fonte, mas insere elementos mais modernos, como monstros mutantes e lutas de kung fu (não poderia ser de outra forma, já que o longa é baseado num game japonês).

Voltando ao assunto. Resident Evil 4 é um lixo divertido. Tem um roteiro cheio de furos engraçados e personagens mal desenvolvidos. Conta também com a bela Milla Jovovich, tirando a máximo de sua beleza e nada do seu talendo como atriz (pode parecer mentira, mas a menina funciona quando é bem dirigida). Mas o que chama a atenção no filme é o total desperdício de oportunidades. Os zumbis são mera decoração e seus ataques não chegam a causar medo. Por outro lado, somos agraciados com interessantes cenas em 3D (a nova praga do cinema). A melhor deles fica por conta do ataque de uma criatura bizarra portando uma machado gigantesco. Em outros momentos, cheguei a sentir pena pelo fato de cenas tão bem realizadas pertencerem a um filme tão vazio, como quando a personagem de Milla, a mutante-lutadora-vingativa Alice, parte com seu avião para o Alasca. O cenário chega a ser bergmaniano e até fantasiei com a Milla tendo uma crise de identidade no cemitério de aviões. A pérola mais divertida, contudo, só pode ser entendida por quem assistiu ao capítulo 3. O epílogo desse filme cria uma série de ganchos para serem aproveitados no quarto episódio da série. Parece que o diretor do número quatro não gostou dos ganchos e resolveu tudo nos primeiros minutos do filme. Ali vemos um prólogo que parece ter saído de algum prequel de Matrix. A personagem Alice perde todos os seus clones e seus poderes em menos de quinze minutos. A epopéia para matar o filme anterior é encerrada com um acidente de avião ridículo e Alice/Mila sai das chamas sem nenhum arranhão. Confesso que chorei de rir com esse começo, mas tem muita gente que ficou ofendida. No final, saí do cinema com aquela sensação de quem comeu maionese em casamento. Teve lá seus momentos, mas algo começava a acontecer no estômago. Muitas coisas não funcionam no longa, mas fiquei procurando qualidades como quem procura chifre em cabeça de cavalo. Que venha o quinto! Que tal chamar de novo o diretor do terceiro?

 

Escrito por marottapeters às 16h55
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27/09/2010


A difícil missão de Guillermo Del Toro

O cineasta Guillermo Del Toro, que já nos brindou com maravilhas como O labirinto do fauno, Cronos e A espinha do diabo (além de dirigir obras hollywoodianas como Hellboy, Hellboy II e Mutações sem perder a alma) está diante de uma missão quase impossível. Pretende transpor para o cinema a obra Nas montanhas da loucura do escritor H. P. Lovecraft. Trata-se de uma tarefa titânica, já que o horror metafísico de Lovecraft já foi considerado por muitos como uma coisa "infilmável". De fato, as criaturas de Lovecraft não são facilmente transportadas para a película. Elas são gigantescas, grotescas, carnais e não se parecem com nada daquilo que povoa o imaginário do público. Além disso, o universo lovecraftiano é tão árido quanto aqueles produzidos por autores mais "sérios" como Kafka ou mesmo o mestre de Lovecraft, Edgar Allan Poe.

A produtora de filmes B Empire chegou a realizar algumas películas utilizando o selo Lovecraft (assim como Roger Corman passou parte da vida canibalizando Poe), mas seu registro era muito mais o do gore do que uma versão fiel às obras. Ainda que filmes como Do além e o clássico trash Re-animator não tenham decepcionado, ficou faltando alguma coisa. A metafísica de Lovecraft e seu profundo senso (pseudo)científico não deram as caras. Por isso e por muitas outras coisas eu espero que Del Toro seja feliz em sua adaptação. Até porque Nas montanhas da loucura é uma das melhores obras de Lovecraft; cheia de tensão, descrições arqueológicas e paisagens inóspitas. A história se passa na Antártida, onde uma expedição encontra vestígios arqueológicos que levam a descobertas assombrosas sobre o passado dos seres vivos na Terra. Viva Guillermo!! 

Escrito por marottapeters às 15h52
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23/09/2010


Salamandra

No Brasil do Período Colonial se acreditava que a salamandra nascia espontaneamente das cinzas das fornalhas. Era uma pequena fênix tropical. Suas cores vivas alimentavam ainda mais a crença de que elas eram animais do fogo. Agora, segundo a reportagem indicada abaixo, algumas salamandras estão voltando literalmente das cinzas. Esses animais são um dos primeiros a desaparecer quando do envenenamento do solo e das águas. Sua pele absorve o veneno, que rapidamente intoxica o pequeno ser...
 
 
P.S. Desculpem pela pequena aula de zoologia fantástica, mas existe algo de trágico nas salamandras. Para saber mais, leia o "Livro dos Seres Fantásticos" do J. L. Borges.

Escrito por marottapeters às 16h24
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18/08/2009


SAIU NA ISTOÉ: o ataque das vacas

Segundo um relatório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, 20 pessoas são mortas por vacas anualmente no país. Até aí tudo bem. Sabemos que ataques de animais a humanos são comuns, até porque muitos deles vivem confinados e submetidos a maus-tratos. Acontece que, no final da reportagem da dita revista, surge uma frase no mínimo espantosa: "...as vacas costumam atacar propositadamente, sem motivo e pelas costas - apenas pelo instinto de ruindade". Instinto de ruindade?! Mas que diabo é isso? Será que o cientista que chegou a tal conclusão estapafúrdia é o mesmo que provou a eficácia daqueles produtos picaretas que são anunciados na tv? Será que é o tal "famoso cientista da Califórnia", que certifica desde liquidificadores a escadas de uso múltiplo? Ou será simplesmente que as ruminantes querem dominar o mundo? De toda forma, isso daria um belo filme de ficção Z.

Para não acharem que estou inventando, aqui vai o link: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2075/ataque-de-vacas-a-pessoas-preocupa-eua-147975-1.htm

Escrito por marottapeters às 15h09
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17/08/2009


SOBRE VELHARIAS E VADIAGENS

A cidade de Assis, que se situa no interior de São Paulo, exumou uma lei esquecida há tempos. Trata-se de um artefato jurídico mofado que ficha pessoas consideradas vadias. O aumento nos índices de criminalidade levou a cidade a implementar um programa de "tolerância zero". Funciona mais ou menos assim: quem for parado numa blitz policial e não tiver ocupação profissional é fichado numa delegacia local. A velharia que justifica tal atrocidade está presente no artigo 59 da Lei de Contravenções Penais. Lá se afirma que quem ficar sem  fazer nada, sendo apto ao trabalho, é um vadio.

Não é de hoje que a sociedade volta suas baterias repressivas contra os ditos "vadios". Nas décadas de 1920,  1930 e 1940, quando o Brasil passava por uma intenso processo de modernização, a perseguição aos vadios se institucionalizou de tal forma que uma grande parcela da população acabou estigmatizada, considerada responsável por seu próprio infortúnio e pela insegurança dos indivíduos considerados trabalhadores e "normais" (alguns discursos chegaram a associar a pobreza e a vadiagem a problemas mentais ou mesmo a certo instinto maligno). Na Inglaterra do período moderno, após os "cercamentos" que expulsaram milhares de homens do campo, aconteceu coisa semelhante; inspirado no nascente discurso liberal, o governo britânico instituiu que vadiagem era crime, e que aquelas pessoas que perderam tudo quando as terras foram abocanhadas por proprietários mais modernos do que seus antigos senhores nada mais eram do que vadias.

Culpar os pobres pela pobreza é o discurso mais fácil que se pode produzir para mascarar as contradições sociais criadas pela nossa modernidade. Num mundo mercantilizado e individualista, a sociedade é sempre representada como harmônica, ou pelo menos com inclinações para tal. O desvio, seja ele qual for, é sempre representado como ação isolada de indivíduos malignos e perigosos. É mais fácil acreditar nisso do que encarar o fenômeno da desigualdade social de forma profunda. De vez em quando a gente tem que falar o óbvio; mas como pouca gente faz isso, vou dar algumas pequenas dicas: olha, meu caro, vivemos num sistema que fabrica miséria; não há emprego para todos; poucos empregos são bem remunerados; as pessoas não são pobres porque querem; nossa sociedade, sinto dizer, não tende à harmonia; vivemos numa sociedade violenta porque fabricamos desigualdade.

Para saber mais sobre o assunto, leia alguma coisa sobre os cercamentos na Inglaterra. Recomendo também o livro da historiadora Sílvia Helena Zanirato Martins chamado "Os artífices do ócio: vadios e mendigos em São Paulo". Minha dissertação de mestrado "Asilo Espírita 'Discípulos de Jesus" de Penápolis: a loucura no cotidiano de uma instituição disciplinar" também faz algumas discussões sobre o tema, apesar de se concentrar na estigmatização dos "loucos" na cidade de Penápolis nos anos 30 e 40. Se não estiver a fim de ler, assista "Ladrões de bicicleta" de Vittorio De Sica ou "Os esquecidos" de Luis Buñuel.

Escrito por marottapeters às 15h09
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11/04/2009


Sobre outro mito

"Lobisomens não existem... mas a mordida deles é contagiosa. Assim, por via das dúvidas, cravem uma rosa na porta de entrada e mantenham os amuletos de prata perto do peito". Foi mais ou menos assim, sem muita convicção na própria descrença, que o velho Amador deu sua opinião sobre o ser mitológico. Seria uma nova versão do "não acredito em bruxas, mas que elas existem, elas existem!"? Pode ser, mas os mitos sempre estiveram vivos. Às vezes eles vestem novas roupas, mudam de endereço... parecem até mesmo passar pelo crivo da razão, esta besta destruidora de névoas mentais. Então, dito ou não-dito, acreditando ou não acreditando, penso que os lobisomens não existem... ou foram extintos.

Escrito por marottapeters às 20h48
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08/03/2009


SOBRE UM MITO

Um dos maiores mitos acerca dos programas de pós-graduação das universidades públicas é aquele que afirma serem elas blindadas ao acesso de estudantes egressos do ensino privado. Minha vida acadêmica começou em faculdades privadas. No final de minha graduação, desenvolvi um projeto de pesquisa, entrei em contato com um professor orientador na UNESP de Assis, prestei as provas de seleção e ingressei no programa de mestrado. A mesma coisa aconteceu quando resolvi desenvolver uma tese de doutorado. Não notei, em todo o processo, nenhum tipo de problema relativo à minha formação anterior. Projetos bem construídos, solidamente embasados, viáveis e criativos podem ser desenvolvidos por qualquer graduado. Obviamente, muitos dos alunos de instituições públicas utilizam a graduação e a proximidade dos professores orientadores para desenvolverem seus projetos, o que, em tese, lhes daria certa vantagem. Mas se trata de uma vantagem apenas relativa. Os cursos de graduação apenas apontam o caminho das pedras. Os alunos devem aprofundar o conhecimento adquirido e iniciar um projeto de pesquisa. Isso demanda dedicação e leitura.

Escrito por marottapeters às 21h12
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01/03/2009


PARABÉNS

Parabéns para a Mariana pela defesa da dissertação de mestrado; para a Graziela pelo aniversário; para a Karenine pelo doutorado e para todos os professores que conseguem dar aulas nas tardes de sábado.

Escrito por marottapeters às 07h36
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26/02/2009


FEVEREIRO DE 1983

A infame ditadura não tinha ainda chegado ao fim. Entre as matérias ordinárias ainda se ensinava Educação Moral e Cívica. Ouvíamos histórias de professores calados; alguns remanejados; outros amargurados. Mas naquele fevereiro de 1983 a perda foi outra. Numa manhã como a de hoje, meio chuvosa, chegamos ao velho prédio do Instituto com a mesma (in)disposição. Os corredores enormes estavam lá, as carteiras de madeira também. Mas uma delas estava vazia e assim permaneceu pelo resto do ano. Não lembro o nome dos trinta e tantos colegas, mas eles ainda se recordam daquele dia. Dias assim parecem falsos, fazem a gente engolilr seco, blindar a mente e seguir em frente. É impossível, contudo, esquecer. Eles retornam de tempos em tempos.

Escrito por marottapeters às 06h54
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