Um dos objetos mais obscuros da História está dando, pouco a pouco, as caras. Trata-se do corpo, alvo da atenção de artistas, médicos, educadores, dentre outros profissionais. Os historiadores, desde a primeira metade do século XX, vêm alargando o campo de sua área. São várias as escolas e autores que renovaram a História. Não cabe aqui, nesse pequeno artigo, fazer um inventário disso. Farei uma breve reflexão, contudo, sobre uma das temáticas que surgiram nesse processo de renovação: a História do Corpo. Não farei aqui uma análise historiográfica. Isso fica para outra oportunidade (e, talvez, outro suporte). O que pretendo é uma pequena reflexão sobre a história do corpo na modernidade capitalista. E, nesse sentido, este pequeno texto sequer é uma obra original, já que se baseia nos trabalhos pioneiros de Eric Hobsbawm, Anson Rabinbach, Michel Foucault, Marcel Mauss, dentre outros; além de obras de autores brasileiros como Margareth Rago, Maria Clementina Pereira Cunha, Maria Cecília Donaldson Ugarte, etc. Por ser um texto de blog, não darei a ele uma cara científica, com longas citações e discussões teóricas, mas procurarei, na medida do possível, dar crédito aos devidos autores.
Na passagem do século XVIII para o XIX uma grande mudança na história da humanidade aconteceu. Trata-se da já famosa Revolução Industrial. O célebre historiador inglês Eric Hobsbawm afirma que não houve um outro evento que mudasse tão drasticamente a vida humana sobre a Terra. Talvez a Revolução Industrial tenha como rival apenas a Revolução Neolítica, que fez o homem passar do nomadismo ao sedentarismo por causa do desenvolvimento da agricultura. A Revolução Industrial levou a Inglaterra, e depois quase todo o planeta, a uma urbanização sem precedentes, bem como a mudanças no universo do trabalho, da cultura e da política (é só pensarmos no século XIX e seus vários “ismos”: anarquismo, socialismo, comunismo, etc). Foi responsável também por um processo radical de “desenraizamento”, com o êxodo rural e a destruição dos vínculos tradicionais que uniam os homens com a terra e com a comunidade. O homem moderno, “desenraizado”, foi jogado pouco a pouco num turbilhão de eventos incapaz de dar a ele um “sentido” estável para sua vida e para o mundo. Exagero? De forma alguma! Se pensarmos na expulsão dos camponeses ingleses, nas condições insalubres de trabalho nas fábricas e no amontoado de operários (e marginalizados) que se acumulou nas cidades, não é possível negar que o mundo urbano forneceria, dali em diante, condições de vida terríveis para grande parte da população européia (processo que se repetiria em outras partes do mundo). Demorou muito tempo para que o capitalismo se “humanizasse”, ainda que tal humanização (acontecida, por exemplo, quando da ascensão da social-democracia e do estado de bem-estar após a Segunda Guerra Mundial) nunca tenha sido completada. Ela permaneceu provisória, uma espécie de eterno porvir, um El Dorado de abundância e felicidade situado em algum lugar do futuro.
Uma das mudanças mais drásticas acontecidas nesse novo mundo industrial foi a transformação no universo do trabalho. O trabalho fabril pouco a pouco transformou o homem num animal laborador. Longas jornadas de trabalho (que chegaram a 14 horas por dia), salários achatados, poucos direitos e um corpo submetido paulatinamente a uma rotina de trabalho estafante foram as marcas da Revolução Industrial. As condições de trabalho e vida dos operários no capitalismo do século XIX foram tão degradantes que o historiador Anson Rabinbach chamou esse século de século da fadiga. No livro pioneiro The human motor, ele descreveu o processo de construção do corpo e sua relação com o trabalho nas fábricas. Rabinbach criou a imagem do homo-motor, um corpo que é um reservatório de energia, capaz de transformar sua força em trabalho mecânico. A partir da metade do século XIX foram criadas técnicas sofisticadas para medir e dominar o corpo humano, que passou a se submetido a uma lógica puramente produtiva. Médicos, administradores, moralistas, religiosos e toda sorte de especialistas passaram a prescrever a atividade laborativa como remédio contra todos os males. Segundo o filósofo Michel Foucault, teve início um processo de docilização dos corpos para extirpar deles todas as práticas tradicionais, improdutivas e indisciplinadas. Tal “disciplinarização” passou a ter, pouco a pouco, um verniz científico. Uma infinidade de novas ciências surgiu para dar conta do corpo humano e transformarem-no numa máquina eficaz. Segundo Maria Cecília Donaldson Ugarte, os industriais, médicos e administradores do século XIX e de parte do século XX achavam que o corpo humano era capaz de trabalhar sem parar, como uma máquina. Bastaria a ele algum alimento e descanso. Segundo ela, ignorava-se a segunda lei da entropia, ou seja, que a energia se esgota a cada vez que se usa. Como resultado, completa a autora, a fadiga e a neurastenia viraram verdadeiras epidemias.
Durante boa parte do século, esses efeitos nocivos do trabalho eram creditados muito mais a uma suposta indolência ou preguiça dos trabalhadores do que a fatores físicos. Só na virada para o século XX é que alguns especialistas (higienistas, fisiatras, psicólogos, etc) passaram a criticar tal visão. A “preguiça” continua até hoje a fazer parte do discurso de muita gente para afirmar a culpa dos trabalhadores por sua condição, mas a crítica aos excessos da carga de trabalho e aos males causados por um arremedo de trabalho, repetitivo e alienante, firmou pé na discussão sobre o tema. Aliás, o pensamento socialista foi, em linhas gerais, pioneiro nas críticas ao sistema de trabalho inventado pela Revolução Industrial. Ainda que as teorias de Marx e Engels, por exemplo, sejam bastante controversas, não podemos deixar de dar razão aos dois quando produzem um triste retrato dos operários da Inglaterra em meados do século XIX na obra A condição da classe operária inglesa. A pena de alguns escritores também se sensibilizou com as condições de vida dos trabalhadores. Como não lembrar das crianças pobres, famélicas e exploradas de Oliver Twist de Charles Dickens e dos corpos maltratados e mutilados dos mineiros de Germinal de Émile Zola?
Outra mudança importante aconteceu quando da invenção de diversas “ciências do trabalho”, que invadiram os manuais dos administradores e a vida dos trabalhadores, incitando-os à atividade física para aumentar a resistência dos corpos à rotina estafante do trabalho (a educação física, por exemplo, foi inventada nesse contexto). Mas falar sobre tal tema seria alongar demais este pequeno artigo. Continuaremos a falar, em outra oportunidade, dessa colonização do corpo. Discutiremos também o longo e doloroso processo que levou a uma mudança fundamental no estatuto do corpo no mundo industrial-capitalista (e mesmo no mundo do socialismo real). Segundo Ugarte, a modernidade deslocou o corpo para deixar de pertencer a si mesmo e servir como uma máquina de produção.