Blog do Carlos Eduardo Marotta Peters


18/08/2009


SAIU NA ISTOÉ: o ataque das vacas

Segundo um relatório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, 20 pessoas são mortas por vacas anualmente no país. Até aí tudo bem. Sabemos que ataques de animais a humanos são comuns, até porque muitos deles vivem confinados e submetidos a maus-tratos. Acontece que, no final da reportagem da dita revista, surge uma frase no mínimo espantosa: "...as vacas costumam atacar propositadamente, sem motivo e pelas costas - apenas pelo instinto de ruindade". Instinto de ruindade?! Mas que diabo é isso? Será que o cientista que chegou a tal conclusão estapafúrdia é o mesmo que provou a eficácia daqueles produtos picaretas que são anunciados na tv? Será que é o tal "famoso cientista da Califórnia", que certifica desde liquidificadores a escadas de uso múltiplo? Ou será simplesmente que as ruminantes querem dominar o mundo? De toda forma, isso daria um belo filme de ficção Z.

Para não acharem que estou inventando, aqui vai o link: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2075/ataque-de-vacas-a-pessoas-preocupa-eua-147975-1.htm

Escrito por marottapeters às 15h09
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17/08/2009


SOBRE VELHARIAS E VADIAGENS

A cidade de Assis, que se situa no interior de São Paulo, exumou uma lei esquecida há tempos. Trata-se de um artefato jurídico mofado que ficha pessoas consideradas vadias. O aumento nos índices de criminalidade levou a cidade a implementar um programa de "tolerância zero". Funciona mais ou menos assim: quem for parado numa blitz policial e não tiver ocupação profissional é fichado numa delegacia local. A velharia que justifica tal atrocidade está presente no artigo 59 da Lei de Contravenções Penais. Lá se afirma que quem ficar sem  fazer nada, sendo apto ao trabalho, é um vadio.

Não é de hoje que a sociedade volta suas baterias repressivas contra os ditos "vadios". Nas décadas de 1920,  1930 e 1940, quando o Brasil passava por uma intenso processo de modernização, a perseguição aos vadios se institucionalizou de tal forma que uma grande parcela da população acabou estigmatizada, considerada responsável por seu próprio infortúnio e pela insegurança dos indivíduos considerados trabalhadores e "normais" (alguns discursos chegaram a associar a pobreza e a vadiagem a problemas mentais ou mesmo a certo instinto maligno). Na Inglaterra do período moderno, após os "cercamentos" que expulsaram milhares de homens do campo, aconteceu coisa semelhante; inspirado no nascente discurso liberal, o governo britânico instituiu que vadiagem era crime, e que aquelas pessoas que perderam tudo quando as terras foram abocanhadas por proprietários mais modernos do que seus antigos senhores nada mais eram do que vadias.

Culpar os pobres pela pobreza é o discurso mais fácil que se pode produzir para mascarar as contradições sociais criadas pela nossa modernidade. Num mundo mercantilizado e individualista, a sociedade é sempre representada como harmônica, ou pelo menos com inclinações para tal. O desvio, seja ele qual for, é sempre representado como ação isolada de indivíduos malignos e perigosos. É mais fácil acreditar nisso do que encarar o fenômeno da desigualdade social de forma profunda. De vez em quando a gente tem que falar o óbvio; mas como pouca gente faz isso, vou dar algumas pequenas dicas: olha, meu caro, vivemos num sistema que fabrica miséria; não há emprego para todos; poucos empregos são bem remunerados; as pessoas não são pobres porque querem; nossa sociedade, sinto dizer, não tende à harmonia; vivemos numa sociedade violenta porque fabricamos desigualdade.

Para saber mais sobre o assunto, leia alguma coisa sobre os cercamentos na Inglaterra. Recomendo também o livro da historiadora Sílvia Helena Zanirato Martins chamado "Os artífices do ócio: vadios e mendigos em São Paulo". Minha dissertação de mestrado "Asilo Espírita 'Discípulos de Jesus" de Penápolis: a loucura no cotidiano de uma instituição disciplinar" também faz algumas discussões sobre o tema, apesar de se concentrar na estigmatização dos "loucos" na cidade de Penápolis nos anos 30 e 40. Se não estiver a fim de ler, assista "Ladrões de bicicleta" de Vittorio De Sica ou "Os esquecidos" de Luis Buñuel.

Escrito por marottapeters às 15h09
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11/04/2009


Sobre outro mito

"Lobisomens não existem... mas a mordida deles é contagiosa. Assim, por via das dúvidas, cravem uma rosa na porta de entrada e mantenham os amuletos de prata perto do peito". Foi mais ou menos assim, sem muita convicção na própria descrença, que o velho Amador deu sua opinião sobre o ser mitológico. Seria uma nova versão do "não acredito em bruxas, mas que elas existem, elas existem!"? Pode ser, mas os mitos sempre estiveram vivos. Às vezes eles vestem novas roupas, mudam de endereço... parecem até mesmo passar pelo crivo da razão, esta besta destruidora de névoas mentais. Então, dito ou não-dito, acreditando ou não acreditando, penso que os lobisomens não existem... ou foram extintos.

Escrito por marottapeters às 20h48
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08/03/2009


SOBRE UM MITO

Um dos maiores mitos acerca dos programas de pós-graduação das universidades públicas é aquele que afirma serem elas blindadas ao acesso de estudantes egressos do ensino privado. Minha vida acadêmica começou em faculdades privadas. No final de minha graduação, desenvolvi um projeto de pesquisa, entrei em contato com um professor orientador na UNESP de Assis, prestei as provas de seleção e ingressei no programa de mestrado. A mesma coisa aconteceu quando resolvi desenvolver uma tese de doutorado. Não notei, em todo o processo, nenhum tipo de problema relativo à minha formação anterior. Projetos bem construídos, solidamente embasados, viáveis e criativos podem ser desenvolvidos por qualquer graduado. Obviamente, muitos dos alunos de instituições públicas utilizam a graduação e a proximidade dos professores orientadores para desenvolverem seus projetos, o que, em tese, lhes daria certa vantagem. Mas se trata de uma vantagem apenas relativa. Os cursos de graduação apenas apontam o caminho das pedras. Os alunos devem aprofundar o conhecimento adquirido e iniciar um projeto de pesquisa. Isso demanda dedicação e leitura.

Escrito por marottapeters às 21h12
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01/03/2009


PARABÉNS

Parabéns para a Mariana pela defesa da dissertação de mestrado; para a Graziela pelo aniversário; para a Karenine pelo doutorado e para todos os professores que conseguem dar aulas nas tardes de sábado.

Escrito por marottapeters às 07h36
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26/02/2009


FEVEREIRO DE 1983

A infame ditadura não tinha ainda chegado ao fim. Entre as matérias ordinárias ainda se ensinava Educação Moral e Cívica. Ouvíamos histórias de professores calados; alguns remanejados; outros amargurados. Mas naquele fevereiro de 1983 a perda foi outra. Numa manhã como a de hoje, meio chuvosa, chegamos ao velho prédio do Instituto com a mesma (in)disposição. Os corredores enormes estavam lá, as carteiras de madeira também. Mas uma delas estava vazia e assim permaneceu pelo resto do ano. Não lembro o nome dos trinta e tantos colegas, mas eles ainda se recordam daquele dia. Dias assim parecem falsos, fazem a gente engolilr seco, blindar a mente e seguir em frente. É impossível, contudo, esquecer. Eles retornam de tempos em tempos.

Escrito por marottapeters às 06h54
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13/02/2009


SOBRE O INTELECTUAL E O INCONFORMISMO

A função do intelectual é a crítica e o inconformismo. Deixem a mediocridade para os pseudo-intelectuais, aqueles leitores de manuais e obras de divulgação, reprodutores de senso comum e acumuladores de referências. A palavra crítica foi desgastada de propósito, adquiriu conotações negativas, como se o crítico fosse uma espécie de “resmungador” perpétuo. Ser crítico não é simplesmente falar mal das coisas, esbravejar contra o governo e rasgar uma foto do Bush. É necessário ir além do discurso de vitrine e entender as engrenagens que regem o mundo, a natureza (ou as naturezas) do Estado, a dinâmica das classes sociais e a reprodução da miséria no sistema econômico. O crítico não fala o óbvio apenas, ele deslinda estruturas, disseca modismos acadêmicos e não concorda displicentemente quando perguntam “não é?”. O crítico dialoga com os teóricos, não os decora para mostrar sapiência. Não devora quilos de livros para mostrar que leu, mas compreende movimentos, tendências, linhas e sabe identificar o que é e o que não é lixo; sabe separar o joio do trigo. Intelectual de verdade, da estirpe de um Zola ou de um Florestan Fernandes, é aquele que não se apequena, que não é porta-voz de instituições, mas do conhecimento e da verdade. É aquele que bota o dedo na ferida e diz, como quem quer tudo, “façamos sempre o impossível, porque o possível é muito pouco”.

Escrito por marottapeters às 13h32
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28/01/2009


GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO 1

1. O termo globalização e sua falta de nitidez conceitual

 

            O fim do século XX, principalmente nas suas duas últimas décadas, foi o período da afirmação do processo de globalização como etapa natural do desenvolvimento do capitalismo. Segundo os teóricos do processo, na sua maioria partidários do pensamento econômico liberal, era chegada a hora da livre circulação de capitais, da despolitização dos mercados, da gestão autônoma da moeda e, fundamentalmente, do livre comércio entre os povos. Essa euforia liberalizante fortaleceu-se ainda mais no início da década de 1990, com a derrocada do socialismo real da União Soviética e dos seus satélites econômicos. Acreditava-se que o fim da experiência socialista, que dividira o mundo em dois durante várias décadas, criaria por fim uma aldeia global marcada pelo livre mercado e pela prosperidade geral.

            Diversos sociólogos, filósofos, historiadores e economistas, contudo, vêm travando um ingrato combate contra a hegemonia do pensamento liberal no mundo contemporâneo. O economista francês François Chesnais, juntamente com outros pensadores considerados heréticos pelos defensores do liberalismo, argumenta que o próprio termo globalização não é um conceito auto-suficiente, capaz de traduzir toda a complexidade do mundo. Apesar de já ter se tornado, no senso-comum, uma palavra corriqueira, repetida à exaustão por aqueles que se consideram informados sobre as mais recentes novidades no campo econômico, o termo surgiu como um receituário de ação para os grandes grupos oligopolistas norte-americanos. Segundo Chesnais

 

“O adjetivo ‘global’ surgiu no começo dos anos 80, nas grandes escolas americanas de administração de empresas, as célebres ‘business management schools’ de Harvard, Columbia, Stanford etc. Foi popularizado nas obras e artigos dos mais hábeis consultores de estratégia e marketing, formados nessas escolas...”

 

            De acordo com o mesmo autor, a mensagem que o conceito carrega para os grandes grupos industriais oligopolistas é que

 

“Em todo lugar onde se possa gerar lucros, os obstáculos à expansão das atividades de vocês foram levantados, graças à liberalização e à desregulamentação; a telemática e os satélites de comunicações colocam em suas mãos formidáveis instrumentos de comunicação e controle; reorganizem-se e reformulem, em conseqüência, suas estratégias globais.”

 

            O termo globalização, portanto, não é neutro. Trata-se de um conceito carregado de ideologia. Em função de sua ambigüidade e de sua não neutralidade, ele recebeu severas críticas entre os heréticos, não adeptos do “deus mercado”, pelo fato de manipular o imaginário social e se transformar num verdadeiro clichê nas discussões políticas. François Chesnais prefere o conceito mundialização do capital, por ser capaz de diminuir a falta de nitidez do termo global. Ele argumenta que

 

“A palavra ‘mundial’ permite introduzir, com muito mais força do que o termo ‘global’, a idéia de que, se a economia se mundializou, seria importante construir depressa instituições políticas mundiais capazes de dominar o seu movimento. Ora, isso é o que as forças que atualmente regem os destinos do mundo não querem de jeito nenhum.”

 

            A globalização, portanto, não é um processo natural. Nem seus pressupostos são leis naturais, que devam ser seguidas por todos os países que buscam um desenvolvimento econômico autônomo. A globalização nasceu como um projeto de expansão, com  postulados estratégicos e com um público alvo restrito: os grandes grupos oligopolistas mundiais.


Escrito por marottapeters às 08h13
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GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO 2

2. A mundialização do capital e as políticas neoliberais

 

            Segundo o economista Wilson Cano, a globalização hoje possui duas variantes precisas: a financeira e a produtiva. A primeira resultaria da extraordinária expansão financeira internacional, beneficiada pela modernização das telecomunicações, pela busca por paraísos fiscais empreendida por bancos e empresas, e pela fragilidade de Estados nacionais, que basearam suas políticas econômicas na atração dos capitais especulativos de curto prazo. Já a globalização produtiva resulta das novas estratégias das empresas transnacionais, que pulverizaram sua produção por vários países, o que facilitou a plena utilização das vantagens estratégicas de cada mercado regional.

            As estratégias de atuação dos grandes grupos internacionais também sinalizaram para uma substituição das simples práticas de exportação por novas modalidades de atuação, com a combinação de uma série de atividades transfronteiras altamente coordenadas e diversificadas. Um dos problemas mais graves causados por essa nova organização da produção e do investimento é que, com a desregulamentação dos mercados mundiais, a capacidade do capital, produtivo ou não, de investir e de retirar investimento aumentou consideravelmente. O capital, em última instância, passa a ter a capacidade de analisar as vantagens estratégicas de cada país, forçando-os a se adaptarem às suas necessidades e vontades.

            A mundialização em curso é resultado, entre outras coisas, da Terceira Revolução Industrial, que teve início na década de 1970, mas que já se esboçava na década de 1950. O crescimento da acumulação financeira dos trinta anos gloriosos do capitalismo no pós-guerra gerou a necessidade de expansão desses capitais pelo mundo. A automação produtiva e seus ganhos de produtividade geraram uma incapacidade nos mercados nacionais centrais de absorverem o excesso de capital e de oferta de bens. Como resposta às novas condições da produção capitalista, as áreas periféricas como a América Latina passaram a ser incentivadas a instalarem suas próprias bases industriais, financiadas pelo excedente de capitais dos países centrais.

            As multinacionais tiveram papel fundamental nesse processo. Países que historicamente se formaram como importadores de produtos industriais, como o Brasil, consolidaram seus parques industriais com tecnologia ligeiramente defasada, criando um novo tipo de dependência: a dependência tecnológica.

            Segundo Cyro Rezende

“Essa nova relação centro-periferia (...) acentuou as condições de dependência das regiões periféricas, fixando-as em cinco formas: 1) dependência financeira, sujeitando o sistema monetário internacional e os organismos financeiros às diretrizes dos conglomerados monopolistas; 2) dependência tecnológica, mediante o controle dos processos produtivos de ponta, e escolha das condições em que se processará a transferência de tecnologia, mediante pagamento de royalties; 3) dependência comercial, pela internacionalização do consumo (...); 4) dependência produtiva, pelo estabelecimento de limites ao desenvolvimento autônomo das economias periféricas, mediante o controle majoritário de suas próprias unidades produtivas; e 5) dependência cultural, internacionalizando os valores da sociedade de consumo, pelo controle dos meios de comunicação de massa (...)”

           

            Diversos conglomerados monopolistas, principalmente americanos, japoneses e europeus, estenderam suas atividades produtivas para outros territórios a partir dos anos 50. Tais grupos, reforçados por uma atuação feroz de seus governos junto aos mandatários dos países periféricos, foram responsáveis pelo grande crescimento da indústria latino-americana no período. A indústria e a economia brasileira em geral receberam grandes aportes de capital produtivo e especulativo na segunda metade da década de 50. O Plano de Metas de Juscelino Kubitschek foi o sinal verde do Brasil para o avanço das multinacionais. O desenvolvimento da economia brasileira nas duas décadas seguintes teria o mesmo componente fundamental: a implantação definitiva do Modelo Associado Dependente. O resultado final do processo foi a oligopolização do mercado brasileiro por essas grandes corporações e o crescente aumento da dívida externa nacional, pressionada pelas vultosas remessas de lucros de tais empresas e pela captação de dinheiro pelo governo para promover investimentos e fechar suas contas anuais.

O mesmo modelo de desenvolvimento foi adotado pelos governos militares na década de 1960 e 1970. O período conhecido como Milagre Econômico no Brasil (1968-1973), foi caracterizado por um crescimento interno do PIB e da produção industrial da ordem de 10% ao ano. O Brasil foi beneficiado, no período, pelo grande crescimento do comércio mundial e dos fluxos financeiros internacionais. O capital estrangeiro, principalmente aquele que adquiria a forma de investimentos diretos, foi fundamental para a manutenção das taxas de crescimento da economia. O resultado lógico do “milagre”, contudo, foi um brutal endividamento externo, que gerou, na década de 1980, a crise da dívida, além do agravamento dos problemas sociais, com o aumento da concentração de renda e a deterioração dos indicadores sociais. Os empréstimos internacionais, obtidos em uma conjuntura de grande liquidez e juros baixos, serviram como uma armadilha para a economia brasileira. O modelo de desenvolvimento calcado na atuação das multinacionais e na captação de recursos gerou uma década de recessão no país.

No contexto mundial, a crise dos anos 70 gerou sérias desconfianças quanto às práticas intervencionistas e reguladoras dos Estados. No âmbito da teoria econômica, os postulados keynesianos, que embasavam a atuação da maioria dos governos capitalistas, foram paulatinamente substituídos pelo receituário liberal. O keynesianismo atribuía ao Estado um papel fundamental na condução da economia. Partindo da crítica ferrenha à idéia clássica de equilíbrio pelo mercado, Keynes e seus seguidores conceberam uma série de mecanismos de atuação do Estado, como o controle do nível da demanda e o aumento das despesas dos governos, com a finalidade de evitar depressões. Outras idéias e práticas incorporadas ao pensamento de Keynes durante os 30 anos gloriosos do capitalismo no pós-guerra foram: a defesa de uma economia mista, com participação de empresas estatais; a regulação do setor privado por agências especializadas e a criação do Estado de bem-estar, que teria a incumbência de distribuir renda para as classes desfavorecidas. É importante salientar que a teoria keynesiana foi formulada num momento histórico delicado para o capitalismo, quando a Grande Depressão esfacelou as economias ocidentais que, naquela altura, funcionavam no contexto de um liberalismo extremado.

A decadência do keynesianismo nos círculos decisórios globais (principalmente no interior das entidades criadas em Bretton Woods) originou o renascimento do velho e desgastado liberalismo. A força avassaladora do ideário liberal (rebatizado estrategicamente de neoliberal) propagou a crença na submissão total à lógica do mercado como uma saída possível para a crise da década de 1970 e 1980. Obviamente, o arcabouço teórico do neoliberalismo não é novo. Já na década de 1940, Friedrich Hayek expôs as teses fundamentais dessa corrente de pensamento. No decorrer dos trinta anos seguintes, o coro neoliberal foi engrossado por diversos intelectuais como, por exemplo, Milton Friedman, que se tornou o pensador liberal mais influente do final do século.

No que se refere às políticas econômicas, os primeiros governos a adotarem efetivamente o receituário neoliberal foram Margareth Tatcher na Inglaterra e Ronald Reagan nos Estados Unidos. Apesar do fracasso relativo da aplicação de tal modelo, com a diminuição da atuação do Estado (Estado mínimo), as privatizações e a liberalização dos mercados (principalmente os mercados financeiros), o neoliberalismo acabou por se alastrar pelo mundo a partir de meados da década de 1980. Em termos de estratégia econômica, os governos ditos liberais acabaram agindo como verdadeiros garotos-propaganda da liberalização do comércio e das finanças, principalmente em setores que favorecessem a atuação, no mercado mundial, de multinacionais influentes politicamente.

Dentre os principais conceitos do neoliberalismo, podemos destacar a defesa do livre mercado, que garantiria a liberdade econômica (confundida com liberdade natural) e a liberdade política. Os liberais justificam tal defesa a partir de uma hipótese frágil; a da existência de uma concorrência perfeita, em que os agentes econômicos seriam tão pequenos frente ao mercado que não poderiam interferir diretamente no estabelecimento dos preços das mercadorias.  Além disso, em função da concorrência, o produto de qualquer vendedor seria homogêneo aos produtos de seus concorrentes. Assim, o pensamento liberal cria um modelo ideal de mercado completamente competitivo, que não se parece nem um pouco com o mercado real. Ele não leva em conta, por exemplo, a possibilidade de formação de oligopólios e monopólios como conseqüência natural da concorrência. A oligopolização e a monopolização, no pensamento liberal, são vistas como deformações das leis do mercado.

A partir de tal hipótese, a da concorrência perfeita, é que os liberais (ou neoliberais) condenam qualquer tipo de coordenação ou controle do mercado. Tal controle, segundo eles, geraria o caos econômico, já que o Estado interventor seria incapaz de promover a produção e a distribuição de riquezas. Assim, para que haja um melhor desempenho do mercado na alocação eficiente dos recursos econômicos, os liberais pregam a existência de um Estado mínimo.

O ideário acima descrito foi a base para a elaboração das reformas econômicas neoliberais, que tomaram o mundo de assalto nas décadas de 1980 e 1990. Reformas como a desregulamentação e abertura do mercado, a privatização de estatais (eficientes ou não), o desmantelamento - onde havia - do Estado de Bem-Estar e a destruição dos mecanismos de atuação do Estado, se tornaram propostas comuns na agenda de diversos governos.

O receituário neoliberal passou também a ser proposto pelos principais organismos internacionais como solução mágica para todos os problemas econômicos dos países em desenvolvimento. A adoção em massa de medidas liberalizantes acabou por tornar a economia mundial extremamente vulnerável ao estilo de acumulação dos imensos capitais financeiros (basicamente fundos mútuos e fundos de pensão), cuja principal função é crescer no interior da esfera financeira. A obsessão desses capitais, segundo Chesnais, é a busca constante pela liquidez, o que os afasta de investimentos produtivos de longo prazo. O caráter de tais capitais seria, portanto, extremamente anti-social, em função da sua falta de comprometimento com as economias nacionais. Embora seja a produção a grande geradora de riqueza na economia capitalista, o fenômeno predominante nas duas últimas décadas foi o aumento da influência da esfera financeira na repartição e destinação social dessa riqueza. Por causa disso, os governos nacionais se tornaram extremamente vulneráveis aos humores do capital financeiro.  O enquadramento dos governos aos postulados do liberalismo deixou-os sem capacidade de manobra para resistirem aos grandes ataques especulativos da esfera financeira. O efeito concreto de tal processo, em termos de política econômica, é a busca incessante, por parte dos governos nacionais, de tornarem seus países atrativos frente ao mercado. Assim, o termo credibilidade passou a substituir o termo desenvolvimento no discurso econômico contemporâneo. Segundo Chesnais, o grau de dependência das economias nacionais frente ao mercado gerou uma conjuntura em que “(...)basta pouca coisa para que um lugar financeiramente ‘atraente’ deixe de sê-lo em questão de dias (...)”.

Escrito por marottapeters às 08h11
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27/01/2009


GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO 3 - CONSOLIDANDO A SUBORDINAÇÃO BRASILEIRA

            A periferia do capitalismo, composta pelos países chamados subdesenvolvidos, começou a sentir os reflexos da ofensiva neoliberal em fins da década de 1970. No Brasil, as influências neoliberalismo já se faziam presentes na década de 1980.

            A economia brasileira caracterizou-se, no decorrer de sua formação, por um alto grau de subdesenvolvimento e dependência, o que gerou uma ineficiência estrutural na obtenção de autonomia em seu processo de desenvolvimento.

            A dependência brasileira assumiu diversas formas no decorrer de sua história. Num primeiro momento houve a subordinação política e econômica a Portugal, nos quadros do Sistema Colonial. Formou-se no território brasileiro uma economia agrário-exportadora, de exploração extensiva dos recursos naturais, o que dificultou a acumulação de capital internamente e impediu a formação de um mercado interno integrado. Num segundo momento, especificamente após a independência do país, a subordinação brasileira se consolidou frente ao avanço da economia inglesa, nos quadros do modelo primário-exportador e do imperialismo anti-industrializante. Com a derrocada do predomínio inglês, os Estados Unidos passaram a exercer maior influência sobre os rumos da economia brasileira. Na década de 1950, consolidou-se um novo tipo de dependência: a dependência tecnológica. No quadro da expansão das grandes multinacionais - que eram amparadas pela difusão dos padrões de consumo dos países centrais para a periferia do sistema - teve início a pulverização da produção industrial para vários pontos da economia mundial. Países como o Brasil sepultaram seu passado agrário-exportador, que lhes dava um papel restrito na divisão internacional do trabalho, e deram início a um modelo de industrialização que se convencionou chamar de dependente-associado. O parque industrial brasileiro, incluindo o setor produtor de bens de consumo duráveis, consolidou-se naquela época. A montagem do parque industrial nacional, contudo, já havia começado na década de 1930, com o processo de substituição de importações, implementado como uma resposta à crise de 1929. Nos anos 50, a dependência gerada pela abertura ao capital produtivo internacional e a conseqüente oligopolização do mercado brasileiro pelas grandes multinacionais resultou numa economia subdesenvolvida e industrializada.

Esse tipo de economia é caracterizado por uma industrialização ineficaz no setor de bens de produção (Departamento I). Se, historicamente, o crescimento das economias capitalistas industriais foi impulsionado pelo crescimento efetivo do Departamento I (produtor de bens de capital e bens intermediários), no Brasil o desenvolvimento inadequado de tal departamento gerou dificuldades estruturais que inviabilizaram o prosseguimento de um processo de industrialização equilibrado e auto-suficiente. A industrialização brasileira foi mais eficiente no Departamento II, produtor de bens consumo, o que acabou por exportar para os centros produtores de tecnologia os estímulos que poderiam ter sido desenvolvidos internamente, numa articulação dinâmica entre os departamentos.

            Por outro lado, a criação de infra-estrutura no país foi obra da ação do Estado, já que não havia acumulação interna de capital privado suficiente para bancar o processo. O desenvolvimento da base industrial no Brasil, desde o primeiro governo de Getúlio Vargas (a partir de 1930), passando pelo desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, e culminando na ação dos governos militares, resultou na criação de grandes estatais e legou ao Estado o papel de fomentador do desenvolvimento industrial.

            Tal modelo de desenvolvimento, pautado na ação do Estado e na dependência tecnológica, entrou em crise no final da década de 1970. A crise da dívida externa, a inflação e a recessão foram alvos de severas críticas dos economistas e pensadores liberais. As críticas foram direcionadas ao gigantismo do Estado brasileiro, à ineficiência das estatais e ao mercado regulado. O mais influente neoliberal brasileiro foi Roberto Campos, um ex-ministro do Regime Militar que, em sua coluna semanal na Folha de São Paulo e em seus textos científicos, foi um dos grandes incentivadores da abertura comercial e financeira, da desestatização e da diminuição do tamanho do Estado no Brasil. Seguindo o receituário liberal clássico, ele diagnosticou, na crise do Estado, a fonte de todos os males da modernidade. A falência do Estado Socialista, do Estado de Bem-Estar e do Estado Desenvolvimentista da periferia seriam, segundo ele, o sinal verde para uma reedição do velho liberalismo.

            A adoção do receituário liberal no Brasil, no entanto, foi efetivada apenas em inícios da década de 1990, com a ascensão à Presidência da República de Fernando Collor de Melo. Sua política industrial baseava-se na busca da competitividade, contrapondo-se às políticas anteriores de expansão da capacidade produtiva mediante incentivos à substituição de importações. Uma de suas primeiras medidas foi a abertura comercial, que intentava submeter as indústrias nacionais à concorrência internacional. O governo reduziu então as tarifas de importação e eliminou várias barreiras não tarifárias. Acreditava-se que assim as indústrias nacionais seriam obrigadas a se modernizarem.

            Outro passo em direção à implementação do programa liberal foi o início do processo de privatizações no país, com a criação do Programa Nacional de Desestatização (PND). O programa foi posto em andamento com a privatização da siderúrgica Usiminas em 1991 e continuou como os presidentes que sucederam Fernando Collor de Melo.

            Mas foi Fernando Henrique Cardoso o presidente responsável pela efetivação das reformas liberalizantes no país. Sua política econômica, formulada e iniciada quando ele ainda era Ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco em 1993 e 1994, pautou-se pela implementação do Plano Real. O plano tinha como objetivo principal acabar com a inflação, um mal que assolava o país desde inícios da década de 1980. Partindo de um diagnóstico de inflação que a caracterizava como inercial, o Plano Real uniformizou o reajustamento dos valores monetários num indexador universal (a URV – Unidade Real de Valor) que, depois foi transformada numa nova moeda: o Real.

            Outra medida tomada por FHC foi a abertura do mercado brasileiro, que passou a receber um número excessivo de produtos importados. Segundo o economista Paul Singer:

“Milhares de artigos, que jamais se pensou que pudessem ser  trazidos do exterior – de leite, manteiga e batatas fritas a eletrodomésticos, roupas, etc. – começaram a encher as prateleiras das lojas e supermercados. Isso representou um choque para nossa indústria, porque a maioria destes artigos não era importada de países adiantados (...) mas de países asiáticos em que o custo do trabalho era ainda menor do que no Brasil.”

 

            Como resultado da abertura, houve uma queda acentuada da inflação, já que os preços internos foram empurrados para baixo pela avalanche de importações. A sustentação de tal mecanismo de contenção do processo inflacionário, contudo, baseava-se na âncora cambial. A taxa cambial foi fixada, no início do Plano Real, em US$ 1,00 = R$ 1,00, o que resultou no encarecimento das exportações brasileiras e no barateamento das importações. A contrapartida, portanto, da estabilização por meio da âncora cambial foi o aumento dos dispêndios de divisas do governo no exterior.

O fôlego de que o governo brasileiro precisava para suportar o crescimento das importações, manter a inflação domesticada e fechar suas contas era dado pelo aumento da entrada de capitais externos no país. O Brasil inseria-se passivamente no movimento de mundialização do capital, transformando tal capital em peça fundamental na manutenção da estabilidade econômica.

Em determinado momento, o afluxo de capitais foi tão intenso, em conseqüência da grande liquidez internacional, que as autoridades econômicas permitiram uma exagerada valorização do real frente ao dólar. O resultado de tal política econômica foi o início da desindustrialização, a radicalização da desnacionalização do parque industrial brasileiro e a ocorrência de déficits freqüentes na balança de mercadorias. Tais déficits tornaram o Brasil vulnerável à especulação do mercado de capitais, já que os investimentos e os empréstimos externos passaram a ser fundamentais para o fechamento das contas do país.

A adaptação do mercado brasileiro ao movimento de mundialização do capital gerou uma conjuntura econômica de instabilidade no final da década de 1990. Tal instabilidade foi agravada por diversos ataques especulativos, que destruíram a âncora cambial. Em meados de 2002, outros ataques especulativos foram responsáveis pela valorização acelerada do dólar. O governo brasileiro, que já enfrentava problemas de divisas em função das altas taxas de juros oferecidas para as aplicações internacionais, queimou divisas em diversas intervenções desastradas no mercado para conter a alta do dólar.  O Risco Brasil aumentou, fortalecendo as desconfianças dos aplicadores estrangeiros quanto à capacidade do Brasil de manter a estabilidade econômica e saldar seus compromissos. A confiabilidade do país desabou e a economia nacional esteve à beira de uma grande crise, já que poderia ter se tornado insolvente, em função da incapacidade de saldar seus compromissos de curto e médio prazo. A solução para o problema foi a obtenção de crédito junto ao FMI, numa clara demonstração do grau extremado de dependência a que o país foi submetido pelos doze anos de política liberal.

Parafraseando a economista Maria da Conceição Tavares, podemos dizer que o que aconteceu no Brasil na última década do século XX, e que ficou como legado para os anos posteriores, foi uma destruição não criadora. A modernização conservadora, implementada desde inícios da década de 1990, não rendeu os frutos esperados. Ao contrário de uma inserção competitiva do país no mercado internacional, ela gerou a desnacionalização e o aumento da subordinação ao capital financeiro. Como conseqüência, ao invés de levar o país a um desenvolvimento autônomo, a política econômica desses anos gerou um grande impasse, já que a própria capacidade de ação do poder público foi desmantelada no processo.

Escrito por marottapeters às 07h48
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16/01/2009


CONFISSÕES DE UM TOMADOR DE CAFÉ

Um estudo divulgado por psicólogos da Universidade de Durham, na Grã-Bretanha, sugere que quem bebe café demais tem mais probabilidade de ouvir vozes, ver coisas que não existem e outras coisas mais. A salamandra gigante que mora em meu armário me disse que isso é invenção dos britânicos para macular a imagem de nossa bebida mais emblemática.

Escrito por marottapeters às 12h33
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14/01/2009


MARIANA

Mariana está confusa; fuma um cigarro atrás do outro na frente da tv

Produz coisas fantásticas mesmo quando diz não querer fazer

 

Mariana fala francês, lê Antonio Cândido e despreza carne na hora de comer

Ela está confusa porque pode ser qualquer coisa que decida ser

 

Então seja, Mariana.

Então seja Mariana.

Escrito por marottapeters às 09h10
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11/01/2009


O PÊNDULO

 

A mulher aproximou-se do guardião e pediu uma audiência com o magistrado. Disse que queria falar sobre seu marido, que há anos fora preso injustamente e que nunca tivera direito a um julgamento. O guardião mostrou à mulher um grande pêndulo, que se projetava do teto escuro da sala de espera. Disse a ela que acionaria o mecanismo e que, quando o pêndulo parasse seu movimento, o magistrado a receberia.

E assim foi feito. A maquinaria matou o silêncio do recinto com seu ruído ventoso e com o ranger de suas engrenagens. A mulher passou dias naquela sala, sem que o pêndulo perdesse a velocidade. Logo, os dias se transformaram em semanas, e as semanas em meses. Aqueles que passavam pela porta do grande edifício logo se solidarizaram com a mulher. Alguns trouxeram para ela alimento e água, e outros, trapos e cobertores. Ela emagreceu na sala de espera. Sua pele enrugou e suas juntas ficaram frágeis.

Quando os negros cabelos da mulher já se acinzentavam, um rosto conhecido entrou pela porta. Era uma de suas vizinhas. Ela trazia notícias de sua terra e de seus filhos. Disse que eles adoeciam sem ela, e que não conseguiam mais extrair alimento da terra. A mulher, desesperada, abandonou a sala de espera e voltou para os seus. Ficou com eles longos dias; dias suficientes para estocar alimentos, tecer novas roupas e curar as feridas.

Quando finalmente voltou à sala de espera, encontrou o pêndulo parado. Chamou pelo guardião e ele matou suas esperanças. Disse que o pêndulo parara por ela, mas que ela, esposa pouco devotada, não estava presente para requisitar o perdão do magistrado.

Escrito por marottapeters às 13h26
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10/01/2009


ARQUIVO DIGITAL DO JORNAL "A ÚLTIMA HORA"

O jornal A Última Hora, de Samuel Wainer, circulou entre 1951 e 1971. Em toda a sua existência, foi favorável aos projetos políticos e econômicos dos presidentes nacionalistas e desenvolvimentistas, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Em seus últimos anos de vida, o jornal sofreu, como os seus pares, nas mãos da censura da Ditadura Militar. Suas páginas foram digitalizadas e podem ser acessadas gratuitamente por qualquer pesquisador no site www.amigosdoarquivo.com.br/uhdigital.

Escrito por marottapeters às 15h02
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APATIA

 

Os pais de Gabriel morreram naquela tarde, num acidente de carro. Eles eram novos, extremamente novos. Era o tipo de morte que seria muito comentada pela comunidade local. "Que desperdício não? Eram tão jovens...", "Como as coisas são...", "Como o mundo é injusto!". Essas foram as frases mais comuns durante o velório do casal. Essas palavras representavam menos o sentimento de pena frente às vítimas do que o medo da morte. É em momentos como esses que as pessoas se desprendem de suas preocupações cotidianas e pensam sobre a perturbadora brevidade da vida humana.

Para Gabriel, contudo, a morte dos pais fora muito mais do que isso. Todo o seu mundo se despedaçara naquele acidente. Todas as suas referências estavam contidas nas ações e palavras dos pais. Ele ainda não adentrara em outro universo, senão aquele construído por eles. Sem eles, seu mundo perdera sentido e parecia não haver mais motivos para continuar respirando.

E foi ali, no meio daquela sala fria e impessoal, que a apatia se abateu sobre ele. Gabriel sentou-se em um canto reservado e lá permaneceu por horas e horas, sem esboçar um movimento sequer. Seus olhos pareciam perdidos, não se fixavam em nada e em ninguém. Seus lábios não se moviam e seus olhos não vertiam lágrima alguma. Parecia uma estátua de mármore, impressão agravada pela extrema brancura de sua face.

Os amigos da família tentaram trazê-lo de volta à realidade, mas nada conseguiram. Tentaram puxá-lo pelo braço, mas ele não se moveu. Tentaram arrancar dele algumas palavras, mas ele silenciou. Depois de longas horas, como último recurso, arrancaram o pobre garoto à força daquele canto, conduzindo-o para a casa de uma tia.

Em sua nova morada, o garoto agiu da mesma forma: sentou-se num dos cantos da casa e ficou por lá, com a cabeça escondida entre os joelhos. Ele passou a noite assim. Antes de se recolherem, seus parentes tentaram lhe dar comida, mas ele permaneceu estático, com os lábios serrados. Resolveram, então, deixar o garoto em paz por algum tempo.

No dia seguinte a cena se repetiu. Todas as tentativas de tirar Gabriel de seu estranho estado foram inúteis. Ele não comeu, não tomou banho, não dormiu, não acordou e não pronunciou nenhuma palavra. Preocupados, seus parentes resolveram chamar um médico. O médico demorou a chegar. Quando viu o garoto, o médico se deparou com um quadro bizarro: o atrito com a parede fez com que suas costas grudassem, misturando carne, tijolos e cimento em uma massa disforme.

Após um breve exame, o médico chegou a uma conclusão aterradora: qualquer tentativa de remover o garoto daquele local acabaria por matá-lo. A estranha anomalia já tinha contaminado órgãos internos, estabelecendo teias de relações que não podiam ser desembaraçadas. Gabriel fazia parte daquela parede e ela fazia parte dele.

Todos ficaram perplexos. Não podiam acreditar em tal fenômeno. Como era possível a carne misturar-se com materiais inanimados daquela maneira? Por que Gabriel não demonstrava sentir dor? Como não havia solução aparente para o problema e nem respostas para as indagações, eles resolveram continuar a vida normalmente. Quando muito, podiam aplicar nas veias do garoto um líquido qualquer para mantê-lo vivo. Quem sabe o processo não se revertesse! Quem sabe o garoto não resolvesse voltar a viver normalmente; afinal aquela fusão parecia ter sido voluntária.

Os dias foram passando e o quadro não se reverteu. Ao contrário, Gabriel fundia-se cada vez mais com a parede, e seu corpo perdia densidade. No final de uma semana, só a cabeça e parte dos membros podiam ser vistas para fora da parede, que agora possuía uma grande mancha negra, que se alastrava à medida que o garoto sumia. A cena assemelhava-se a uma obra de arte bizarra: partes petrificadas de gente emolduradas por sombras.

Quinze dias após o início do fenômeno, apenas as mãos de Gabriel permaneciam visíveis. Para ocultá-las, os tios do garoto resolveram transformá-las em suportes para adornos. No final do primeiro mês, Gabriel desapareceu completamente e os penduricalhos que pendiam em suas mãos despencaram rumo ao chão vermelho. Em seu lugar, sobrou apenas a mancha escura. Seus familiares há muito já não se importavam com ele. Acreditavam terem feito o possível. Todos achavam que era hora de esquecer o passado e respirar novos ares. Eles resolveram pintar a parede, para que a mancha ficasse oculta. E assim foi feito. Após a pintura, a parede ficou linda, parecendo nova. Foram gastos, no trabalho, mais de cinco galões de tinta, porque a estranha mancha absorvia, sedenta, cada mão pintada. 

Gabriel foi esquecido. Seu nome nunca mais foi pronunciado naquela casa. Era como se ele nunca tivesse existido. De vez em quando eles ainda falavam de seus pais e do terrível acidente que lhes havia tirado a vida. Mas o nome de Gabriel sumiu, da mesma forma que ele; aos poucos. O pobre garoto, que se fundira à parede, não teve sequer direito a uma lápide no mausoléu da família. Não havia corpo para ser enterrado. Não havia certeza nem se aquilo que acontecera fora morte mesmo. Ele se transformara em uma mancha e isso não é necessariamente morrer.

Muitos anos depois aquela casa foi demolida. Dizem que ela sangrou. 

 

(Conto escrito em 1996 e publicado no livro Mutações: 20 escritos soturnos em 2002)

 

Escrito por marottapeters às 08h43
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