A cidade de Assis, que se situa no interior de São Paulo, exumou uma lei esquecida há tempos. Trata-se de um artefato jurídico mofado que ficha pessoas consideradas vadias. O aumento nos índices de criminalidade levou a cidade a implementar um programa de "tolerância zero". Funciona mais ou menos assim: quem for parado numa blitz policial e não tiver ocupação profissional é fichado numa delegacia local. A velharia que justifica tal atrocidade está presente no artigo 59 da Lei de Contravenções Penais. Lá se afirma que quem ficar sem fazer nada, sendo apto ao trabalho, é um vadio.
Não é de hoje que a sociedade volta suas baterias repressivas contra os ditos "vadios". Nas décadas de 1920, 1930 e 1940, quando o Brasil passava por uma intenso processo de modernização, a perseguição aos vadios se institucionalizou de tal forma que uma grande parcela da população acabou estigmatizada, considerada responsável por seu próprio infortúnio e pela insegurança dos indivíduos considerados trabalhadores e "normais" (alguns discursos chegaram a associar a pobreza e a vadiagem a problemas mentais ou mesmo a certo instinto maligno). Na Inglaterra do período moderno, após os "cercamentos" que expulsaram milhares de homens do campo, aconteceu coisa semelhante; inspirado no nascente discurso liberal, o governo britânico instituiu que vadiagem era crime, e que aquelas pessoas que perderam tudo quando as terras foram abocanhadas por proprietários mais modernos do que seus antigos senhores nada mais eram do que vadias.
Culpar os pobres pela pobreza é o discurso mais fácil que se pode produzir para mascarar as contradições sociais criadas pela nossa modernidade. Num mundo mercantilizado e individualista, a sociedade é sempre representada como harmônica, ou pelo menos com inclinações para tal. O desvio, seja ele qual for, é sempre representado como ação isolada de indivíduos malignos e perigosos. É mais fácil acreditar nisso do que encarar o fenômeno da desigualdade social de forma profunda. De vez em quando a gente tem que falar o óbvio; mas como pouca gente faz isso, vou dar algumas pequenas dicas: olha, meu caro, vivemos num sistema que fabrica miséria; não há emprego para todos; poucos empregos são bem remunerados; as pessoas não são pobres porque querem; nossa sociedade, sinto dizer, não tende à harmonia; vivemos numa sociedade violenta porque fabricamos desigualdade.
Para saber mais sobre o assunto, leia alguma coisa sobre os cercamentos na Inglaterra. Recomendo também o livro da historiadora Sílvia Helena Zanirato Martins chamado "Os artífices do ócio: vadios e mendigos em São Paulo". Minha dissertação de mestrado "Asilo Espírita 'Discípulos de Jesus" de Penápolis: a loucura no cotidiano de uma instituição disciplinar" também faz algumas discussões sobre o tema, apesar de se concentrar na estigmatização dos "loucos" na cidade de Penápolis nos anos 30 e 40. Se não estiver a fim de ler, assista "Ladrões de bicicleta" de Vittorio De Sica ou "Os esquecidos" de Luis Buñuel.