Blog Arte Sem Amarras (por Carlos Eduardo Marotta Peters)


28/12/2015


Por uma vida longa e feliz para Madame Bovary

Matar o personagem que transgride as convenções sociais é uma estratégia comum na literatura (e, por tabela, no cinema). O século XIX nos forneceu várias vítimas fatais de seus “desvios” de conduta. Tal estratégia visava obviamente acalmar o público conservador, temeroso que o comportamento visto como inadequado fosse premiado com uma vida digna, próspera e longa. É como se esses personagens não tivessem direito a tal vida... Afinal, na cabeça quadrada do conservador, uma obra de arte deve fornecer exemplos de conduta para seu público. Mas a conduta correta é sempre aquela estabelecida por ele e seus pares. A morte final restabelece a tal “normalidade” desejada por eles.

A lista de personagens que sucumbem no fim da história é longa: Madame Bovary de Flaubert, Anna Karenina de Tolstói, Lucíola de José de Alencar, etc. O caso de Lucíola é um que sempre me chamou a atenção. Ela morre duas vezes. A moça já começa morta na história e, no final, morre de verdade. Deixem que eu me explique.  Ela é uma mulher solitária no mundo porque está morta para a família (morte simbólica para seu grupo de origem também é morte) em função de seu comportamento. O duro é que seu comportamento “desviante” foi causado por uma necessidade da própria família. Quando finalmente Lucíola encontra uma pequena luz no fim do túnel, morre de verdade. Crueldade pouca é bobagem...

O cinema, que deriva em grande medida da literatura, tem também uma grande galeria de mortos. Não só mulheres adúlteras (são muitas as adaptações de Madame Bovary e Anna Karenina para o cinema), mas os “desvios” da natureza também precisam morrer. O trágico monstro do Dr. Frankenstein é um deles (não importa que ele seja ressuscitado nas continuações...). Mas a galeria é longa. A maioria dos monstros (humanos ou não) morre no final. 

Gostaria de ver uma adaptação modernosa de Madame Bovary em que quem encontra a morte no final não é a esposa adúltera, mas o marido bovino que a encarcera numa vida monótona e sufocante. Ou melhor, gostaria de ver uma Madame Bovary feliz em Paris, enquanto seu marido chafurda na mediocridade numa vila francesa qualquer. Como não sou um purista, subverter os clássicos talvez fosse o primeiro caminho para dar vida longa e próspera a quem merece... 

Fiquei esperançoso quando anunciaram a versão pós-moderna de Anna Karenina, com Keira Knightley no papel principal. Esperava que tivessem a coragem de parar o trem que mata a protagonista no final, ou que fizessem uma Anna forte e decidida, capaz de superar os preconceitos de sua época e ter controle sobre sua vida. Mas o filme não faz isso. Prefere perder tempo com cenários móveis e atuações histriônicas. Que pena!

Por C. E. M. Peters.

Escrito por marottapeters às 11h34
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